A culpa da vítima

Para quem achou que eu ia falar do caso envolvendo vídeos de whatsapp, traficantes e crimes sexuais está enganado. É que esse ano, entre as muitas epifanias que tive, resolvi compartilhar algumas em forma de post e essa é uma delas. O mais “legal” desses momentos de iluminação é que eles tem vindo de coisas a princípio ruins em minha vida, mas de todas ao menos uma boa lição eu levo. Essa daqui veio dos dois furtos que sofri nesse ano.

No primeiro eu tive a minha casa invadida por bandidos que, injustiçados pela sociedade, fizeram uma redistribuição de renda forçada. Dentre várias pequenas coisas furtadas, estavam meu notebook de trabalho, o da minha esposa, TV… enfim, todo e qualquer eletrônico que aparentava valor foi subtraído de meu lar. Chegar em casa e presenciar a bagunça é uma situação inenarrável. Me senti invadido em mim mesmo, sem chão, afinal invadiram o meu refúgio, meu porto seguro, aonde eu confio que posso deixar aquilo que com trabalho foi conquistado. A primeira reação foi então de pânico, seguido por revolta (ambas em torno de um minuto cada) e depois por um alto grau de calmaria, quase um psicopata analisando e pensando nos próximos passos para minimizar as perdas. Essas foram minhas reações. As reações das pessoas com quem eu conversava sobre o ocorrido é quem eram mais interessantes.

Me perguntaram se eu tinha alarme. Disse que não. Mas poxa cara, você tem que ter alarme, você marcou nessa…
Me perguntaram se eu tinha seguro. Disse que não. Como alguém não tem seguro da casa? É barato e ajuda muito nessas horas.

Enfim, segui me sentindo culpado por uns dias enquanto trocava a porta de metal que usaram para invadir e ouvia que portas assim tinham que ter reforço. Que era estupidez da minha parte não ter. Reforcei a porta como pessoas sensatas dizem que deve ser.

O outro seguiu mais ou menos a mesma linha. Em viagem de trabalho com amigos, minhas malas acabaram no banco da frente, junto com minha mochila, onde eu guardei o passaporte. A minha reação foi idêntica (me permiti ser humano de novo quando estava abrigado na casa de um amigo/anjo que mora na cidade do ocorrido) e as das pessoas também. Eu fui estúpido. Deixei meus bens trancados num carro, bastava alguém quebrar a janela e levar. Dito e feito. O problema é o que o feito veio antes do dito e não deu tempo de me precaver.

Essa coisa toda me deixou bem alerta e reflexivo quando vejo esses casos de estupro, assassinato, furto, assalto de pessoas que deram a oportunidade. Todos foram estúpidos por acreditar que vivemos em sociedade e que os demais membros da já citada seguiriam suas regras de boa conduta. Todos nós somos pessoas idiotas que um dia deram a oportunidade (mesmo que você não tenha percebido) e uma pessoa que não deixa esse tipo de coisa passar, tomou vantagem disso.

A lição que tiro de tudo isso? Não dê bobeira! Não dê oportunidade! Pois mesmo se você não der a culpa é sua, o malandro só está agindo conforme a natureza dele.

Posted on: 20 de junho de 2016, by :

1 thought on “A culpa da vítima

  1. Fui assaltado 2x na vida, e realmente o sentimento é horrível. São dias pensando sobre, atrapalhando o sono, repondo o que foi subtraído… Toda sorte do mundo a você Juliano para voltar “à rotina” o quanto antes.

    Agora, quanto à sociedade, parece que estão incorporando a forma de desenvolver software na vida real… Você cidadão (desenvolvedor) é que tem que se precaver com toda sorte de segurança (testes, análise estática, code review, coverage, etc, etc) pois os ladrões (bugs) estão por aí e são ‘naturais’ ao processo. A culpa é sua se algo sai errado…

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