Como ensinar?

Uma das coisas que mais aprendi ao longo dos anos foi como ensinar. O legal disso é que ensinar me levou a aprender, o que é um círculo virtuoso que eu quero manter pelos próximos 50 anos ou mais. Nesse humilde post vou contar como foi a minha história com aprendizagem, como comecei a ensinar e finalmente hoje treino todo o tipo de pessoas, CEOs de grandes organizações até universitários ávidos por conhecimento que os diferencie no mercado.

Sou filho de uma professora e isso foi muito impactante para essa carreira. Minha mãe, como criou a mim (e a meu irmão) sozinha fez o melhor que pode dentro dos seus recursos para nos prover uma ótima educação. Desde de muito jovem eu via como um educador fazia a diferença na vida das pessoas. Ela foi por alguns anos professora na zona rural da cidade, quando ia todas as manhãs pegar um ônibus que a levava para a fazenda, passava o dia em uma turma multiseriada (acho que era de 1º à 4º anos) e no fim do dia regressava para casa. Aquelas pessoas sentiram na educadora alguém que se importava, que lhes oferecia bem mais do que conteúdo mas valores que pautaram suas vidas. Quem não ia querer ser essa pessoa.

Eu mesmo comecei a ensinar já na infância. Na escola, o nerd/gordo/zarolho/filho da professora não tinha como ser mais zuado. Não tendo mais o que fazer na escola, com pouca interação social, me restava então me dedicar às aulas e isso eu fazia. Acompanhava as aulas e como não me distraia aprendi sempre com relativa facilidade os conteúdos. Obviamente os caras mais sociais da sala, como estavam ocupados em ser populares não tinham o mesmo desempenho. Aí que eu me tornei “popular“. As pessoas com dificuldade me buscavam querendo aprender sobre os conteúdos. Isso se dava por algumas razões. A primeira e mais óbvia: eu sabia e eles não. Simplesmente eu tinha um conhecimento que mesmo com a mesma oportunidade de aprendizado foi melhor aproveitada por mim. A segunda razão, um pouco mais sutil é: eu sabia falar a língua deles. Era mais simples perguntar ao colega de mesma idade do que para outra pessoa com 20, 30 ou 40 anos a mais que você. Fora a intimidação que a figura do professor passava, que gerava um certo temor em perguntar e ser repreendido. Outra vantagem em aprender comigo e não com o professor eram as metáforas. Eu conseguia fazer paralelos, explicar usando outros exemplos, trazer aquilo para uma realidade mais simplificada do que o conteúdo formal da sala de aula.

Em um determinado ano o diretor da escola resolveu trazer um curso de informática para a cidade, algo inovador em 1989. A minha mãe, como trabalhava na escola sugeriu colocar o filho para ajudar na parte burocrática do curso em troca de um desconto nas mensalidades. E assim eu ajudava com as matrículas, com o recebimento das mensalidades, organizava a sala entre as turmas, essas coisas que uma criança pode fazer. E assim eu consegui fazer meu primeiro curso de informática. No ano seguinte o curso se renovou e então eu pude continuar trabalhando, mas agora com uma pequena renda. Foi então que aconteceu de um professor faltar um dia. E faltou outro. E mais outro. E então eu comecei a buscar novos professores de informática sem muito sucesso, afinal, era o início dos anos 90 e informática não era tão trivial como é nos dias de hoje. Consegui alguns, mas poucos se mantinham no curso. Foi então que me vi obrigado a tomar uma decisão. Levantar a bandeira branca e dizer ao diretor que não tínhamos como continuar ou ousar dar uma aula seguindo o conteúdo que eu já conhecia, mesmo que obviamente sem a profundidade de um professor. Acabei optando pela segunda. Saí petrificado da primeira aula, nervoso como um adolescente no seu primeiro beijo (sim, sou velho o suficiente para crer que isso deva acontecer na adolescência, mas enfim…) mas consegui. E a medida que os dias iam passando e os dias se tornando meses, os meses se tornaram anos e aquilo realmente ficou fácil para mim. Estudei programação nessa época, com uma apostila que um colega de classe tinha me presenteado por te-lo ajudado a concluir um software. Era em Clipper. Bons tempos. Estudei o suficiente para então começar a desenvolver meus próprios softwares e então poder ensinar a programar.

Nesse momento eu tinha entendido uma coisa interessante. Se você sabe fazer de fato, sabe o que você está ensinando na prática, o ensino se torna leve. Você não está mais ensinando um conteúdo formal vindo de um livro ou treinamento. Nada contra conteúdos formais, nem tudo dá para praticar. Mas ter vivência naquilo que se ensina te dá bagagem, exemplos, te permite ter alternativas para aquelas perguntas mais inesperadas. E assim, ensinando um curso após o outro, uma aula após a outra, eu pude ir entendendo os pequenos meandros dessa arte.

Quando eu finalmente concluí um curso universitário (iniciei 4, papo para outra conversa) eu pude perceber o valor daquele modelo de formação. Não pelo conteúdo, já me considerava um programador experiente naqueles dias (pra minha sorte o mercado também) mas pelo ambiente. É um local de estudo, um ambiente focado em aprendizagem, com pessoas que também exercem funções no mercado durante o dia, que buscam se atualizar, criando atalhos para um conhecimento que existe, está ali solto no ar, mas que eles já fizeram a coleta, processaram e te entregaram prontinho. Veja, não estou elogiando o modelo de ensino que muitos criticam por aí. É só a impressão que deixou em mim. Fiz amigos para a vida toda por lá e sempre fui humilde e respeitoso com meus professores, mesmo os mais jovens que eu. Eles deram inputs interessantes para a minha melhoria como profissional.

Após a universidade eu voltei dar treinamentos, agora ensinando como as pessoas poderiam melhorar o seu jeito de trabalhar utilizando as tais práticas ágeis que tanto falo aqui no blog. Via os discursos inflamados e cheios de paixão desses caras e os diferentes tipos de treinamentos. Alguns eram mais formais, com projeção, flip-charts e apostilas. Outros eram mais dinâmicos, com práticas, papéis coloridos, bolinhas e dinâmicas que movimentavam, divertiam, mas ainda assim ensinavam. Nesse momento eu entendi que ensino não é sobre transmissão de conteúdo, mas sim sobre levar o educando a entender um conceito. Isso significa que eu posso até te contar sobre algo, você pode entender a minha mensagem e isso seria muito bom. Agora se eu te fizer sentir, provocar a surpresa, a sensação, o sentimento que te conecte ao conteúdo o resultado é muitas vezes mais efetivo. É como se o aprendizado formal se formasse no cortex e o informal se desse no límbico.

Já havia lido sobre Teaching from the back of the room e achava suas ideias interessantíssimas para ligar aluno e conteúdo ensinado. Usei muitas delas em meus treinamentos, mas sentia que poderia fazer melhor, dar um certo polimento naquilo. Seguindo nessa linha, nesse último ano tive a grata oportunidade de me juntar com outras pessoas que assim como tinham entendido que aprender tem que ser algo que venha de dentro dos educandos e fui apresentado ao conceito de Learning 3.0. Nessa maneira de entender o aprendizado, o treinador é um mero maestro, orquestrando seus alunos na construção do conhecimento. A ideia é que, usando técnicas de aprendizagem emergente, os alunos construam um conteúdo próprio, em conjunto, que provavelmente será muito mais retido do que num modelo tradicional de estuda-decora-prova.

Hoje eu sinceramente não sei como definiria meus próprios treinamentos. Uso projeção (sem vergonha alguma de dizer isso) porém poderia talvez dar um treinamento sem ela. Uso flipcharts porque os treinandos gostam de ver que você pode construir seu próprio material sem depender de recursos como o PPT. Dá a elas a sensação de que existe um domínio forte do que está sendo apresentado. Uso o máximo de dinâmicas que posso para esclarecer o conteúdo e levar os treinandos a sentir mais do que saber. Enfim, talvez não é um estilo que se encaixe em uma descrição, mas é o meu estilo. O que sei é que os feedbacks têm sido positivos, melhorando a cada classe e cada dia que ensino aprendo um pouco mais sobre essa arte.

Portanto como se ensina algum conteúdo? Não ensine. Promova o sentir, fomente a interação e permita que eles construam o conhecimento sob sua regência. Bom aprendizado/ensino e até a próxima.

Posted on: 14 de dezembro de 2015, by : juliano

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