O Controle Sutil

Hoje se vê muitas pessoas falando que praticam Scrum. Isso quase sempre é bom. Eu vejo pessoas que têm um quadro bonito, que pregam post-its nele, que fazem reuniões curtas e em pé todos os dias. Eu vejo pessoas que planejam de tempos em tempos suas iterações e que têm papéis declarados dentro de seus departamentos, que por força da literatura chamam de “times”. Como disse meu amigo Edson, o que no fim das contas estamos fazendo é simplesmente entregar porcaria mais rápido.

Claro que estou generalizando, existem pessoas que compreendem e sabem como fazer de uma equipe um time ágil. Mas como é isso? Porque mais e mais pessoas falam tanto de ágil sem saber do que realmente falam? Como levar a essas equipes a razão de tudo isso?

Para quem já leu e tentou praticar Scrum sabe que o processo é simples. Não tem grandes segredos e é pouco prescriptivo. Não há muitas regras e com um pouco de treino qualquer time pode executar o processo. Estou falando de executar e não manter. Se existe algo que é capaz de manter um processo de maneira contínua e duradoura é a mudança cultural. E como sabemos isso não é feito por processos, mas sim por valores.

Para quem estudou as origens da “agilidade” conhece o artigo escrito pelos professores Takeuchi e Nonaka. Nesse artigo, escrito há quase 30 anos, eles estudaram o desenvolvimento de alguns produtos em equipes de alto desempenho. Com isso, conseguiram reunir quais eram os valores praticados pelos membros dessas equipes. Destes, eu vou falar hoje só de um, o controle sutil, por julgar que é um dos mais difíceis de se aplicar.

Como diz meu guru, Heitor, eu posso lhe explicar ou fazer você sentir…

Para fazer você sentir, vamos contar uma história. Na última semana, estávamos finalizando um projeto quando percebemos que um requisito havia passado sem ser atendido. O desenvolvedor dessa equipe rapidamente pensou em uma solução, coisa realmente simples, que em menos de duas horas foi implementada. Quando ele foi me mostrar a solução, percebi uma falha perigosa na lógica dele. Expliquei e dei a minha própria solução. Fui taxativo ao dizer que aquela seria a única solução possível, algo que logo o mesmo argumentou. Debatemos por alguns minutos até um sino tocar em minha cabeça me lembrando dos valores dentro da agilidade. Foi quando dei minha conclusão ao debate dizendo:

Está bem, eu vou tomar um café, vou deixar você batendo cabeça um pouco até eu voltar.

Sinceramente, eu nem café queria. Quando eu voltei, ele havia elaborado a lógica perfeita para aquela situação. Melhor que a solução inicial, melhor que a solução que eu propus, melhor do que eu podia ter imaginado.

Entenderam? Não? Então vou contar um nova história.

Essa mesma equipe aceitou uma história pesada, difícil de ser executada, mas aceitou o desafio. No primeiro dia, nenhuma tarefa pronta e o nosso burndown nem se mexia, no segundo dia a coisa parecia ir para o mesmo caminho. Foi quando intervi, sugerindo uma determinada configuração do time, no qual um par continuava a codificação, outro desenvolvedor executava os testes. Assim a coisa começou a melhorar e no dia seguinte essa equipe já se reorganizou, realizando um rodízio entre os papéis até que encontraram a configuração ideal e no fim do sprint, tivemos o nosso sucesso do desafio vencido.

Agora você percebeu? Nas duas situações eu poderia ter comandado, exercido a autoridade que meu cargo me permite e feito a equipe se dobrar a minha vontade, fazendo aquilo que eu julgava como sendo melhor. Mas não. Podia ter tido um final diferente, que talvez não fosse o ideal, mas tivemos sorte nos dois casos. Se bem que em equipes ágeis, o erro deve ser permitido, pois incentiva o aprendizado, mas isso é tópico para outro post.

O controle sutil é isso, conduzir as pessoas, dar as dicas de como atingir uma meta, mas sem mandar. Impor a autoridade de um cargo de gerência ou coordenação pode simplesmente conduzir a resultado já previsto, censurando o processo crítico e criativo desses times. Assim, a grande sacada é iniciar o processo e acompanhar para que nada possa impedi-los de performar o melhor de si.

Posted on: 6 de abril de 2013, by : juliano

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