O problema não é da arquitetura

Estive recentemente palestrando na XP Conf BR, iniciativa muito legal dos meus amigos gaúchos para falar um pouco sobre “agilidade de raiz”. Essa agilidade de quem realmente faz o código, de quem escreve código e quer fazer bem feito. Falamos muito sobre as práticas da programação extrema e algumas outras coisas correlatas. É legal que, de uns tempos para cá, eu ando muito reflexivo e questionando quase tudo e todos. Talvez seja só um mal (ou bem) da idade mas o fato é que toda situação que me deparo tem me puxado um pensamento e esses eu tenho compartilhado por aqui. Foi muito bom rever meus amigos falando de Pair Programming, de Histórias de Usuário, de metáforas, entre outros assuntos legais. Assuntos teóricos, outros com casos reais de implantação, enfim, tudo ótimo. Mas a reflexão que isso me puxou é a seguinte: o problema realmente está na arquitetura?

Eu por vezes me vi tentado a pensar que sim, que como desenvolvedor eu via meus pares criando códigos de maneira quase irresponsável. Sim, irresponsável, afinal, a responsabilidade pelo código que escreviam era do gestor, do dono da empresa, ou ainda da criatura maligna do cliente que realmente não sabe o que quer, ou ainda não sabe pedir direito. Quando a gente vai num evento como esse, cheio de desenvolvedores, ávidos por escrever código de qualidade eu me questiono aonde estamos errando pois a realidade é bem distante da utopia que falamos nas palestras.

Nas palestras a gente fala de como deveria ser. De como nos fariam felizes que nossos ambientes de desenvolvimento fossem. De como seria legal que os valores ágeis, aqueles do manifesto, fossem seguidos como um código de conduta. É assim que baseio a minha vida e me parece plausível fazê-lo quando estou trabalhando. Pensar em pessoas e interações, software que funciona, colaboração com cliente e adaptação serem mais importantes que processos, documentos, contratos e planos parece fazer bastante lógica na cabeça de todo mundo que eu converso. Mas aonde estamos errando? Por que temos tanta dificuldade de convencer gestores sobre isso? Uma ideia que vem martelando na minha cabeça há tempos é que nós não entendemos o manifesto. Não entendemos a profundidade da mudança de pensamento exigida para fazer aquilo ali ser real. Vejo usualmente os desenvolvedores traduzindo “indivíduos” como “minha equipe”. É fácil se esquecer que em todos os níveis da nossa organização existem indivíduos, pessoas, seres humanos, de nossa espécie, e que esses são afetados se fizermos um trabalho mal feito.

De novo, não acho que o problema seja de arquitetura, tenho plena fé que meus amigos desenvolvedores são extremamente hábeis técnicamente para resolver os problemas que surgem e se não forem são capazes de evoluir a ponto de superar os obstáculos. Eventos como o XP Conf me mostram isso. O problema é que nós não nos importamos com as pessoas. Nem mesmo aquelas dentro da nossa organização, quem dirá aqueles que vão usar o nosso código para solucionar problemas em suas vidas.

Posted on: 2 de dezembro de 2015, by :

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